Blog Maria Toscano

no dia da água – “janela de maré”, poema de Maria Toscano

no dia da água – “janela de maré”, poema de Maria Toscano

(…)

 

 

 

 

 

o medo – esse reverso das marés,

seu inimigo mais vil e dissimulado –

é governado pela voz insegura

pelos incertos passos onde a hesitação

vai buscar embalo certo e acalento.

– pois só se dá à vida o que de vida se habite

e o habitáculo do vivente respira corajoso.

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sou mais uma entrega da maré

e porque venho pela mão do oceano

liberto, logo à chegada, a resistência,

força contrária ao rumo do desapego

– pois só se dá à vida o que de vida se habite

e o habitáculo do vivente desliza vagaroso

pelo líquido amniótico da entrega.

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sou mais uma entrega da maré

e porque chego pelo mover das vagas

abdico de todo o gesto oponente

ou rival da delicada oscilação

– pois só se dá à vida o que de vida se habite

e o movimento do vivente germina cuidadoso

pelo líquido amniótico da entrega.

(…)

Figueira da Foz. Casa do Caes. 14 e 22 Novembro /2015.

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fragmento do poema ‘janela de maré’ de ‘porto de prata. Livro Primeiro. In Colectânea Ciclo da Prata. 5 Livros de Poesia de maria Toscano.. Coimbra, Palimage ed. Dez/2017: pp. 14-15.

esse homem. 14. — fábula  [ no Dia Mundial da Poesia ]

esse homem. 14. — fábula [ no Dia Mundial da Poesia ]

 

 

 

 

 

esse homem é mortal. por isso inventa casulos onde solidão
acenos sem expectativas e rombos de fogos e braços pueris.
esse homem é mortal na vida, no sangue sémen e dor.
finge desconhecer — ou teme conhecer — que o rumo
dos rios e das marés também podem alagar as margens quietas.

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é preciso ser-se um mortal sabedor da morte
para entender que há rumos nos rios e marés e margens quietas.

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para quem percorra o rio são as margens que se movem.

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para qualquer marinheiro são as marés que rumam a vida.

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mas este homem não é marinheiro — só é mortal.
sem cigarro ou cachimbo de madeira, fumegante
sem dedos amarelados nem ressequidos
sem barba farta nem bigode macio na hora do beijo amante
— este, é um homem mortal, enfurecido com a vaga e as ondas.

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árdua condição — real humana finita — ao invés da mítica,
da ficcionada condição de marinheiro de apelido perdido
para todo o sempre por entre o sal das onduladas carícias
das iniciáticas ternuras na pensão do 7.º andar
numa alta noite de gestos impossíveis mas fervorosos.

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tequila. mezcal. rum.
levanta muertos y salsa.
“bésame mucho”.
“te quiero, te quiero, te quiero”.

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é preciso ser-se um mortal sabedor da morte
para entender que há rumos nos rios e marés e margens quietas,
para aprender que, uma vez beijado na boca de um marinheiro,
nunca mais o mar nos liberta.
e só nos salva
pela nossa entrega, cativos, à sua rugosa saudosa mão.

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© Maria Toscano. Poema e Imagem.
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Poema: do livro inédito “esse homem — fábulas.”
Casa do Caes. Figueira da Foz. 8 Jan/2016.
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imagem: Porto de Leixões. 12 Outubro/2017.

‘anunciando a lua cheia e o fulgor da brasa do sol’ poema pela Primavera de 2018 – 20 Março, 16:00hs

‘anunciando a lua cheia e o fulgor da brasa do sol’ poema pela Primavera de 2018 – 20 Março, 16:00hs

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uma névoa a ligar teu pulso a meus dedos a unir meus dedos a

teu pulso a juntar esta mão, até há pouco minha, a essa mão, até

há pouco tua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

um raso laivo a maresia, uma brisa ou bruma cálida, vagabundeando

pelo verão, anunciando a lua cheia e o fulgor da brasa

do sol, digo, dos sóis que são nossos corações, abrasados de mel.

 

porque há uma chuva de mel, uma rasa maré dourada, digo, de

prata dourada, pois se todo o sal aqui se converte à prata, mais

nenhum outro travo sobrevive sem o mel, o teu mel, o meu mel,

o mel, esse, que até há pouco era pobre e tristonho, de tão só.

porque a lua nova me aconchega.

porque a lua nova te resguarda.

 

uma memória única e nova – disse, memória nova, pois tudo

o que sei e recordo nada é comparado com o lume e o raspar da

dança de nossos dedos, até aqui meus, até aqui, teus.

porque a lua é nova eu nasço.

 

um perfume, apenas um perfume eivado de energia

e vibração.

 

podia fechar os olhos e reconheceria o teu doce enlace com ar com

oxigénio entre as polpas dos nossos dedos.

 

uma descoberta, um sentimento de alerta e curiosidade intensas,

um misto de distância objectiva e fusão irracional sem travão.

 

um gesto a descompor o gesto prisioneiro dos dias.

pode morrer todo o movimento.

deste luar – deste tocar –

nunca mais serei desprovida.

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Maria Toscano.

[escrito na Figueira da Foz. Casa do Caes. 18-19 Junho /2015.]

In “mel de prata. Livro Quarto.” – Ciclo da Prata. 5 Livros de Poesia.Colectânea. Palimage ed. Dezembro/2017, pp. 86-87.

imagem: Maria Toscano. Campo Maior. casa da avó Amália. 3 Agosto/2014. [captação por Iphone]