Ciclo da Prata – ciclo

Muitas expressões foram elencadas e escalpelizadas, vendo-lhes as aberturas e os limites que continham. 

Seguramente que a escolha da expressão ‘Ciclo’ assume que esta pode ser tudo menos exacta, na medida em que aqui não estou a abordar nenhum circuito similar aos históricos ciclos de matérias-primas e de desenvolvimento económico-social ao longo do período de colonização portuguesa da américa–latina e de áfrica, nos séculos XV-XVII.

Nada exacta, ela tem a grande vantagem de conter ambivalências ou, pelo menos, ambiguidades que levem os leitores a perceber ou clarificar melhor esta escolha, bem como a aderir-lhe ou a questioná-la. tudo é possível, uma vez que um título é uma sinalização e uma orientação de leitura feita por autor/es-as. Logo, é uma pista ou chave, não uma conclusão nem, muito menos, um fecho ou uma tranca.

O Ciclo foi aqui pensado a nascer no porto de mar (porto de prata, primeiro livro) de um mar que é de prata (segundo livro), mas também onde trabalham mãos (mãos de prata, terceiro livro) que são protagonistas de afectos, ternuras e lutas áridas como doridas – o mel (mel de prata, quarto livro) e o sal (sal de prata, quinto prata). 

Resta-me dizer que estive tentada a escolher ‘declinações da prata’, na medida em que sinto que toda a obra é uma tentativa de declinar (como se de um verbo latino se tratasse) o tema da prata; ou seja, se eu tivesse de considerar as grandes vertentes da prata, no contexto em que escrevi a obra, claro, e sempre na relação com ‘mar de prata, costa de prata’, seriam estas: mar, porto, mãos, mel e sal. contive-me e optei por não fazer plágio de mim mesma, pois já em 2013 tinha adoptado essa expressão para a obra ‘Resguardo das Esfinges. Declinações do Branco.’ [Livro de 80 páginas gravado em estúdio e editado sob a forma de vídeo (trabalho de criação fotográfica e edição: Susana Paiva)].

Escusado será dizer que, posteriormente ao envio do livro para a gráfica, novos textos têm surgido e provocado o sonho, impossível, de calar de vez e de libertar a minha escrita deste tema ‘prata’. tal não significa, porém, que ‘tenha’ de vir a escrever sobre este tema nem, sequer, que este tema seja um ‘destino’ da minha escrita. toda a construção criativa assenta em escolhas e decisões associadas a interesses, prioridades, preferências e linhas de trabalho maturadas e aprofundadas.

Penso que esta Colectânea sobre o Ciclo das Prata esgota a minha concentração e foco neste tema como tema central ou leit-motiv. a sua presença será sempre bem acolhida por mim, tanto mais que os fios de prata se multiplicam na minha cabeleira e foram eles que desencadearam a minha atenção à vida e presença ‘da prata’ no (meu) quotidiano.