enquanto não chegas viro a fatia do pão saloio já com dois dias /
e espero pela função escorreita da moderna torradeira eléctrica. /
se soubesse que aí estavas por perto até punha já as tuas torradas, duas,/
a fazer — não muito queimadas nem muito alouradas: bem torradas, portanto./
sim, é verdade: não são horas de fazer torradas!/
o cheiro enfia-se pela chaminé e vai parar ao andar de cima,/
o movimento na casa, com mudança de divisão e de luzes, perturba/
o ecológico e quântico sono das fiéis cadelas/
e ainda lhes provoca gula, pecado sempre associado nos entes caninos/
à representação manipuladora da fome/
sob toda a forma de trejeitos dos olhos dos beiços das orelhas/
e, mesmo, de um chiar pseudo-uivante, acertado/
ao gradual deslizar na redução da distância face ao dono — no caso, à dona —/
e da sempre, tão proibida quão inesperada, pata pousada no colo,/
ameaça certeira do salto em duas patas, caso a intervenção da autoridade/
se adie ou negligencie./
mas hoje está tudo calmo, por aqui: não te preocupes que os vizinhos/
não serão despertados a meio da madrugada com ladradelas/
nem uivos manhosos de cadelas mimadas como se prezam de ser os animais urbanos./
tudo isto enquanto fazia as torradas./
sim, fazia: já terminei de virar as duas fatias do pão saloio com dois dias de dureza/
e a moderna torradeira eléctrica portou-se à altura./
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o que não se inventa quando o virar das páginas de um livro já não cala a saudade:/
virar torradas? francamente!
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© maria toscano.
Poema Inédito – Coimbra. (C)Asa Verde. 28 Julho / 2014.
Imagem captada por Iphone. Porto. Rotunda da Boavista. 3 Fevereiro / 2018.
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