Blog Maria Toscano

esse homem. 14. — fábula  [ no Dia Mundial da Poesia ]

esse homem. 14. — fábula [ no Dia Mundial da Poesia ]

 

 

 

 

 

esse homem é mortal. por isso inventa casulos onde solidão
acenos sem expectativas e rombos de fogos e braços pueris.
esse homem é mortal na vida, no sangue sémen e dor.
finge desconhecer — ou teme conhecer — que o rumo
dos rios e das marés também podem alagar as margens quietas.

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é preciso ser-se um mortal sabedor da morte
para entender que há rumos nos rios e marés e margens quietas.

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para quem percorra o rio são as margens que se movem.

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para qualquer marinheiro são as marés que rumam a vida.

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mas este homem não é marinheiro — só é mortal.
sem cigarro ou cachimbo de madeira, fumegante
sem dedos amarelados nem ressequidos
sem barba farta nem bigode macio na hora do beijo amante
— este, é um homem mortal, enfurecido com a vaga e as ondas.

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árdua condição — real humana finita — ao invés da mítica,
da ficcionada condição de marinheiro de apelido perdido
para todo o sempre por entre o sal das onduladas carícias
das iniciáticas ternuras na pensão do 7.º andar
numa alta noite de gestos impossíveis mas fervorosos.

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tequila. mezcal. rum.
levanta muertos y salsa.
“bésame mucho”.
“te quiero, te quiero, te quiero”.

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é preciso ser-se um mortal sabedor da morte
para entender que há rumos nos rios e marés e margens quietas,
para aprender que, uma vez beijado na boca de um marinheiro,
nunca mais o mar nos liberta.
e só nos salva
pela nossa entrega, cativos, à sua rugosa saudosa mão.

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© Maria Toscano. Poema e Imagem.
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Poema: do livro inédito “esse homem — fábulas.”
Casa do Caes. Figueira da Foz. 8 Jan/2016.
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imagem: Porto de Leixões. 12 Outubro/2017.

no caminho de regresso

no caminho de regresso

1.
no caminho de regresso/
encontramos os braços que entregámos./

 

 

 

 

 

há longos silêncios/
e saudosos gestos/
a demarcar as bermas da loucura/
para onde o mar nos encaminha, meu amor/
pois só mar ou amor nos liga e une/
no caminho de regresso da passagem separados.
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2.
no caminho de regresso, separados
resistimos à distância e à privação.
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somos antigas peles e vozes, meu amor.
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somos vozes eternas
e da redenção.
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Maria Toscano.
© [poema inédito]. Porto, Casa da Voz. Fev / 2018.
© fotografia: Matosinhos, 12 Outubro / 2017.

as Cidades e os Rios

as Cidades e os Rios

 

os Rios vieram à cidade de visita, em alegre passeio.

 

 

chegaram pelo leito do rio

mestre em cursos e mapas de navegação.

 

pelos dedos do rio central vieram

até escolherem, cada um, o seu caminho

o seu rumo novo a desbravar por entre as casas.

 

as escolhas eram inéditas e múltiplas:

— nunca os rios, antes, tinham tido a opção

de alagar zonas calcetadas e empedradas

nem, mesmo, barradas de alcatrão e cimento,

zonas urbanas citadinas e manuais.

os rios conheciam muitos percursos

eram bem viajados:

sabiam de leitos pantanosos em pausa no estio,

ruas de areia e pedra se, na fatal secura,

fundos aguados ou esverdeados

se transfiguravam em passeios pedonais entre margens.

os rios conheciam as margens curtas

e as generosas mas, também, alagadas.

os rios conheciam centros históricos

nivelados para acolherem mais águas,

baixios de herdades, encostas vãs,

ocos muros e pontões instáveis. furos

de poços disfarçados por entre os campos,

docas abandonadas na crise da dignidade operária,

marginais burguesas invadidas de espuma e sal

onde os rios às vezes marcavam encontro com o mar.

mas, ruas de pedrinhas ou cimento, inteirinhas

ruas feitas à mão, do passeio ao bueiro,

ruas urbanas interiores a apartamentos

escolas, zonas de lazer e gratidão

ah, essas eram escolhas, até então, inéditas

que os rios dessa primeira vez estrearam,

que os rios aceitaram como rito e desafio.

foi assim que os rios vieram amigáveis

de visita e em passeio alegre à cidade.

ao primeiro escoar dos seus passos

as casas deitaram olhares distraídos

acalmando o nervosismo dos próprios rios.

depois, os caudais avolumaram-se

e, as casas, inquietas, franziram o sobrolho

que é como quem diz, recolheram portadas e portas,

deram voltas a ferrolhos e fechaduras

e puseram-se, à espreita, detrás das persianas

estrategicamente descidas a três quartos.

os rios, novos nas lides urbanas

confiaram nesses sinais como acenos

e gestos de confirmação para avançarem

em segurança – todos, casas e rios.

só que o que parece nem sempre é e onde os rios

leram confiança dádiva generosidade e integração

as casas tratavam de erguer barreiras

desconfiança, ao mesmo tempo que, entre si, emitiam

mensagens de medo disfarçadas de protecção

mensagens de medo cobarde sob o nobre argumento

de estarem a ser minadas na sua supremacia

ante a realidade inteira: floral, faunal,

líquida, gasosa, térrea, enfim: natura viva.

escusado será dizer de equipas e batalhões

de especialistas mobilizados pelas casas:

— domadores do fogo e de inundações.

experts em assaltos a cofres e caixas-forte.

mergulhadores de gélidos negros e limpos mares

familiarizados com a veneta bipolar das marés.

ninjas atléticos rapidíssimos em fatos lustrados.

duetos de agentes da autoridade (qual?) à paisana

que ao passar, de tão perfeitos, passavam por camaleões.

para além de funcionários endividados a pato-bravos

munícipes gestores presidentes de Junta ou Juntas

fiéis cães-de-fila de quem manda até que mude

e se virem, fidelidade e focinhos, para o novo amo —.

escusado será dizer e continuar

a enunciar o caos instalado nas Cidades

não pela vocação de tais equipas ou batalhões

mas porque o alerta não tinha cabimento

e, como se sabe, quando se enfrenta a uma força da ordem

com um movimento de forças não agressivo

o paradoxo instala-se nas forças treinadas para a desordem:

a reacção de não-reacção é inusitada

e, por regra comunicativa, bloqueia a reacção treinada.

os Rios que visitavam as Cidades

em alegre passeio de descoberta

e expansão de suas habilidades

sentaram-se, tristes — muito — pela incompreensão

de casas e suas forças treinadas para a desordem.

e, sentados pelas Praças Largos e Esquinas das ruas

os Rios desataram a chorar, desconsolados.

só então os visitados perceberam como a visita era amigável.

mas já era tarde pois a subida das lágrimas

inundava carpetes, móveis, casas e corações.

 

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maria toscano ©

Coimbra, Pastelaria Tosta Rica, 17 Fevereiro / 2014 .

 

 

 

as torradas

as torradas

enquanto não chegas viro a fatia do pão saloio já com dois dias /

e espero pela função escorreita da moderna torradeira eléctrica. /

 

se soubesse que aí estavas por perto até punha já as tuas torradas, duas,/

a fazer — não muito queimadas nem muito alouradas: bem torradas, portanto./

sim, é verdade: não são horas de fazer torradas!/

o cheiro enfia-se pela chaminé e vai parar ao andar de cima,/

o movimento na casa, com mudança de divisão e de luzes, perturba/

o ecológico e quântico sono das fiéis cadelas/

e ainda lhes provoca gula, pecado sempre associado nos entes caninos/

à representação manipuladora da fome/

sob toda a forma de trejeitos dos olhos dos beiços das orelhas/

e, mesmo, de um chiar pseudo-uivante, acertado/

ao gradual deslizar na redução da distância face ao dono — no caso, à dona —/

e da sempre, tão proibida quão inesperada, pata pousada no colo,/

ameaça certeira do salto em duas patas, caso a intervenção da autoridade/

se adie ou negligencie./

mas hoje está tudo calmo, por aqui: não te preocupes que os vizinhos/

não serão despertados a meio da madrugada com ladradelas/

nem uivos manhosos de cadelas mimadas como se prezam de ser os animais urbanos./

tudo isto enquanto fazia as torradas./

sim, fazia: já terminei de virar as duas fatias do pão saloio com dois dias de dureza/

e a moderna torradeira eléctrica portou-se à altura./

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o que não se inventa quando o virar das páginas de um livro já não cala a saudade:/

virar torradas? francamente!

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© maria toscano.

Poema Inédito – Coimbra. (C)Asa Verde. 28 Julho / 2014.

Imagem captada por Iphone. Porto. Rotunda da Boavista. 3 Fevereiro / 2018.

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